Heiðinn Evrópa

Em busca da Cosmovisão da Verdade

Filosofia Ocidental: Racionalismo — 25 de maio de 2019

Filosofia Ocidental: Racionalismo

Definindo As Categorias

Para inciar uma longa caminhada, deve-se estar bem preparado, e não viria a ser diferente com a filosofia; iremos iniciar aqui uma trajetória passando pelo Racionalismo, Empirismo e Misticismo, para afinar as discussões em tópicos mais complexos futuramente. Algumas noções só podem ser compreendidas com outras, noções complexas exigem noções simples para serem apreendidas; mesmo assim, o que é simples não é menos complexo, as peças que formam um carro separadas tem o mesmo valor que juntas, tudo depende de como elas são arranjadas para dar sentido as coisas. Portanto, vale fazermos uma categorização inicial naquilo que se compreende como Exoterismo & Esoterismo.

Ambos os termos dizem respeito a formas de hermenêutica que circundam as doutrinas, tradições e religiões. Apesar do termo ser  lido como genérico, o exoterismo e o esoterismo são ramos da filosofia, onde se compreende que a linguagem e forma de expressão das doutrinas tradições e religiões tem significados externos e simples (exoterismo) e significados secretos e complexos (esoterismo); tais termos não são mera criação do imaginário humano, mas uma forma de manter aquilo que é difícil de ser compreendido pela maioria como intocado. Infelizmente em tempos recentes houve uma banalização desses conceitos, a leitura que tenderia a ser apenas metafísica, se encontra entrelaçada com ocultismo, ufologia e espiritualismo; disciplinas frutos da modernidade e sem nenhuma ligação com a Tradição Primordial.

Portanto, há uma tríade dentro da história do pensamento, a qual corresponde a uma ordem de componentes primordiais para a própria existência humana, isto nos ramos físico, metafísico e a interação entre ambos. Naquilo que compõem a história do pensamento do Ocidente temos reminiscências dessa conjectura primordial, a qual se mantém mais preservada no Oriente, entretanto, não é interessante buscar essas ligações agora, resta apenas segregar cada categoria onde lhe é devida, pois vemos então a tríade de uma maneira holística: Alma, Espírito e Corpo (Misticismo, Racionalismo e Empirismo); desse modo, falaremos aqui do espírito, o qual corresponde o Racionalismo.

Concepções Racionalistas

O Racionalismo é uma escola de pensamento fundamentada em grande parte pelo matemático e filósofo francês René Descartes, mutuamente viriam a surgir outros expoentes dessa escola como o judeu Baruch Espinosa e o alemão Gottfried Leibniz. Cada um desses personagens ressuscitou o Geist (Alemão para Espírito, sendo aqui uma forma mais pura da palavra, sem interferências de significado cristão como na forma Latina da palavra) de seu ethos, ou seja, Descartes bebeu de fontes platônicas, Espinosa de fontes judaicas e Leibniz do idealismo comum aos germânicos. Assim sendo, o Racionalismo veio à tona na tentativa de demonstrar a origem do conhecimento como advinda do inatismo.

Para fins de compreensão, tratarei aqui sobre essa escola sob uma ótica mais cartesiana, que mantém viva toda a ideia da filosofia proposta ainda pelos antigos gregos. Pois é sabido que a ideia da apreensão do conhecimento é derivativa de dois estágios, um inato e o outro nato, ou seja, um ainda não nascido e outro nascido, um se da pela descoberta do conhecimento em si mesmo e o outro pela apreensão simples e pura do ambiente, afinal, o que explicaria a diferença dos indivíduos de terem habilidades tão diversas em uma mesma atividade? Como e por quê Mozart foi um pianista gênio com apenas 7 anos de idade, enquanto algumas pessoas levam 7 anos para aprender a tocar uma de suas Sonatas com louvor.

Essa então é uma das resoluções dos racionalistas: de que o conhecimento, em parte ou totalmente, transita para nós à priori do nosso nascimento, como algo advindo de onde quer que nós viemos e se viemos. Um conceito bem contrastante e incerto, por conta disso, Descartes impõem uma dúvida sobre a natureza fundamental das coisas, dúvida essa chamada de Doute Cartésien, ou Dúvida Metódica. Em suas Meditações, Descartes coloca que o pressuposto máximo desse método é duvidar dos sentidos, duvidar da materialidade por trás de cada coisa; ele chega ao final à concepção de que através da faculdade do pensamento pode-se chegar a realidade dos objetos.

A ideia parece simples, mas tem implicações mais drásticas do que essa explicação simplista vastamente dada pelos filósofos da modernidade, talvez por uma inabilidade da leitura realmente, ou apenas má fé; assim, podemos ver o que de fato há nas entrelinhas dessa categorização da razão através da faculdade de pensar. Como dito inicialmente, Descartes foi matemático, portanto versado na habilidade de mensurar símbolos de modo abstrato, e como se é sabido, a matemática tem origem iniciática (portanto, esotérica), sendo usada vastamente por Pitágoras, um dos primeiros filósofos que afloraram na Grécia Antiga.

Portanto, as concepções de símbolos se apresentavam claramente para Descartes, a matemática como a conhecemos não seria o bastante para provar a veracidade das coisas existentes, pois ele propõem que um Daimon (análogo aos Gênios da mitologia Árabe pré-cristã) possa manipular toda a realidade, portanto, até mesmo os símbolos matemáticos. Isso infere que não há segurança no mundo material, estamos sendo reféns a todo instante de algum ser de ordem superior que nos faz acreditar nos sentidos, logo, a única forma de captar a verdade através dos objetos é com o pensamento, acessando assim a metafísica diretamente.

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Dualismo Cátaro

Antecedentes Do Racionalismo

Descartes tinha como denominação o cristianismo, porém, é visível que possivelmente tenha sido influenciado direta ou indiretamente por correntes Gnósticas, como o Catarismo. Fato é que seu pensamento guarda pormenores substanciais, como uma forte conexão dos indivíduos no mundo material com o que ele denomina Deus, mas que também pode ser compreendido como a metafísica ou logos primordial. Descartes é filho de seu tempo, e como tal ele demonstra uma boa conexão com tudo o que o cerca, porém, suas noções de metafísica deixam claro a conexão do racionalismo com a noção de espírito (aquilo que liga o mundo físico ao metafísico).

Todavia, a ideia do pensamento como meio único de acesso a verdade é derivado de algo mais antigo que a própria filosofia, o Ascetismo: uma denominação para um caminho, ou modo de vida onde o objetivo último é o completo destacamento da realidade material como conhecemos para poder se integrar com a natureza primordial, metafísica das coisas. Algo como sair da caverna, usando o conhecimento e práticas iniciáticas para poder se destacar cada vez mais das comodidades do dia-a-dia e as miscelâneas da sociedade.

Enxergamos portanto uma noção perene nessa escola de pensamento, vemos que ela guarda muitos resquícios e noções integrais daquilo que os mestres do ascetismo pensavam no passado. Em sua origem na história do pensamento, o racionalismo foi formulado por Platão, onde o mundo das ideias era o único lugar onde a verdade se apresentava, tudo mais no mundo físico seria falso. Uma noção um tanto radical, mas quando comparada as noções principais do ascetismo extremo, ao exemplo dos Cátaros, vemos um mesmo tom. Uma mesma linguagem comum a casta sacerdotal da Grécia Antiga; indícios de como as ideias primordiais sobreviveram sob a égide de concepções várias ao longo da história.

“A ascese não significa que você não deve ter nada, mas que nada deve ter você.”

-Ali Ibne Abi Talibe

 

Filosofia Ocidental: Parmênides & Heráclito — 27 de março de 2016

Filosofia Ocidental: Parmênides & Heráclito

Em toda a historia da filosofia Ocidental uma das coisas mais relevantes, se não a mais relevante, é a divisão das filosofias de Parmênides e Heráclito, cada um com as ideias de imobilidade e mobilidade respectivamente. Ambos eram gregos e viveram na mesma época, entretanto nascidos em cidades diferentes, e mesmo nesse tempo, eles tinham conflitos públicos.

Para explicar o alcance desta divisão, é necessários compreender em que cenário estas ideias ganharam força, e em quais movimentos e momentos históricos cada uma se destacou mais ou entraram em conflito. A discussão nasceu com a ideia da imobilidade, para Parmênides as coisas são estáticas, mudanças não existem já que a existência é atemporal, uniforme, necessária e imutável, e a ideia que contrapõe esta afirmação é o ser móvel de Heráclito, onde tudo é fluido, tratarei de cada um individualmente.

  • Parmênides (530-460 a.C.)

Foi um filosofo Pagão da Grécia Antiga nascido em Eleia, cidade ao Sul da Magna Grécia, suas datas são confusas, tendo primariamente Diógenes Laércio e Platão tendo proporcionado tal confusão. Ele foi o fundador da Escola Eleática junto à Zenão de Eleia, seu principal discípulo, e Melisso de Samos, crê-se que também escreveu as leis da cidade de Eleia e foi a maior influência da filosofia de Platão. É também creditado com a autoria de um poema intitulado Sobre a Natureza onde ele deixa claro as suas interpretações de imobilidade do ser.

Suas ideias são a base geral de Platão, tendo este apenas incrementado seu pensamento (coisa bem similar ao que os cristãos fizeram com o pensamento de Platão), ele tinha como fundamentos:

  • A imobilidade do ser;
  • O mundo sensível não é confiável, é ilusório;
  • O ser é eterno e imutável;
  • O que a visão nos mostra não é confiável;
Parmenides
Parmênides em Pintura de Rafael Sanzio

Então, pode se resumir a conclusão de Parmênides da seguinte forma: Já que toda a realidade é imutável, estática, e sua essência está presente no Ser-Absoluto, que é a definição metafisica daquilo que seria onipotência, e que qualquer descontinuidade em sua presença seria como seu oposto, o não-ser, ele define que as coisas não podem ‘não-ser’ pelo problema de continuidade e a abstração causada por esse pensamento, ele basicamente nega que a vida não tem sentido criando um sentido a ela.

De modo teórico esse pensamento pode até se sustentar, mas na pratica não é viável, à exemplo do Amor Platônico, onde segundo a definição do filosofo, o amor não é algo carnal, mas metafisico, onde apenas pode existir através da imaginação, da idealização da coisa, sem nunca consuma-la. Também há o problema da aproximação desse pensamento com o cristianismo e com as interpretação pagãs cristianizadas, onde podemos ver que todo o pensamento de Parmênides, e mais tarde aprimorado por Platão, sustenta a ideia do paganismo ser uma espécie de religião ascética, quando temos noção de que esta não é uma ideia correta.

Os movimentos em que Parmênides teve grade influencia pode ser destacado com facilidade como movimentos com muitos pensadores cristãos, em raros casos isso não se aplica, como em Kierkegaard, que fica sempre em cima do muro mas puxando mais para o lado de Heráclito, os movimentos com base Parmenídica são: Escolástica, Idealismo (tal como o Idealismo alemão), Platonismo, Neoplatonismo, Positivismo e Racionalismo, sendo esse ultimo talvez o mais conhecido. É difícil conciliar movimentos político-filosóficos nessa divisão de Parmênides e Heráclito, mas pode se dizer que tudo que segue um espectro liberal ou marxista é mais parmenídico.

  • Heráclito (535-475 a.C.)

Heráclito é o outro filosofo Pagão da Grécia Antiga que se estabelece na discussão do Ser junto à Parmênides, nascido em Éfeso, é tratado na história como o “Pai da Dialética” e uma pessoa “Obscura”, ele é o idealizador da mobilidade, o ser não estático, não imóvel, logo o ser não é. Heráclito não era muito popular como pessoa publica, na verdade ele era odiado por alguns, nas palavras de Diógenes Laércio: “Heráclito, filho de Blóson, ou, segundo outra tradição, de Heronte, era natural de Éfeso. Tinha aproximadamente quarenta anos por ocasião da 69ª Olimpíada (504-501 a.C.). Era homem de sentimentos elevados, orgulhoso e cheio de desprezo pelos outros”. Este relato da uma noção marcante de como o filosofo tinha um sentimento misantropo em relação à sociedade, seu objetivo era de viver livre no campo, ele conseguiu tal objetivo, só que não sem ser muito criticado pelos efésios, e todo esse sentimento misantropo e natural vai servir para a formulação de suas ideias.

Um pensamento primário que se pode surgir em relação à Heráclito é que ele é uma má pessoa, entretanto, a narrativa de Diógenes Laércio pode, novamente, esclarecer isso: “Retirado no templo de Ártemis, divertia-se em jogar com as crianças e, acercando-se dele os efésios, perguntou-lhes: De que vos admirais, perversos? Que é melhor: fazer isso ou administrar a República convosco?”. Tal passagem também demonstra a grande aversão à democracia tida pelo filosofo.

Seu pensamento pode ser visto em três campos, que não vou me ater a cada um individualmente, mas unicamente, pois seu pensamento faz mais sentido se suas ideias forem postas juntas:

  • Arché;
  • Cosmologia;
  • Dialética;
Heraclito
Heráclito em Pintura de Rafael Sanzio

O fogo é a Arché de Heráclito, logo tudo se origina do fogo, inclusive foi assim com o cosmos, e já que o fogo é altamente destrutivo, nada é igual em sua composição, cada chama que queima é diferente. Isso é a interpretação filosófica comum, mas assim como todas as outras Archés, o conceito que é dado por cada uma, nesse caso o do fogo, é extremamente metafórico. Não é a Água propriamente, para Tales, que criou tudo inclusive o universo, pois isso soa muito verossímil de uma forma, mas nada pratico de outra.

A presente mobilidade do ser é peça chave para o paganismo e êmulo para o cristianismo ou religiões monoteístas, abraâmicas. Assim como também se opõe às políticas tanto liberais quanto marxistas, pois essa mobilidade apresenta uma função que não é própria de alguns indivíduos (judeus, muçulmanos, liberais, comunistas, et cetera) e queos ameaça. O pensamento Pagão pode ser resumido em um modo circular, onde não há inicio nem fim, onde as coisas se repetem em uma ordem natural como uma forma de beneficio. Alguns movimentos que seguiram o pensamento de Heráclito: Aristotelismo, Ceticismo, Epicurismo, Niilismo, Renascimento, Existencialismo e Empirismo, sendo esse ultimo o mais reconhecido.

L'enlèvement d'Europe
L’enlèvement d’Europe (O Rapto de Europa) por Noël-Nicolas Coypel

É bom frisar que essas linhas de pensamento, mesmo que em primeiro plano pareçam muito simplistas, foram expandidas e modificadas durante toda a historia, cada qual para cada ideia por cada pensador. Mas as origens permanecem inalteradas, e o aproveitamento de Platão da filosofia Parmenídica lembra muito o aproveitamento de Santo Agostinho sobre Platão, foi esse mimetismo que acabou gerando essa bipolaridade na filosofia, que em certos pontos se unem mas logo se estranham, pois além de serem teorias diferentes, na pratica também não se dão, e podem acabar resultando em guerra, como já aconteceu na história.

Ainda explorarei esse tema mais, entretanto para partir a uma filosofia mais complexa, a base tem que estar firme, portanto me aterei em dois ou três momentos relevantes da filosofia antiga, antes de discutir o pensamento em momentos mais presentes ou até na atualidade…

Filosofia Ocidental: Aristóteles — 25 de março de 2016

Filosofia Ocidental: Aristóteles

Foi um dos maiores filósofos Pagãos da Grécia Antiga (384-322 a.C.), discípulo de Platão e mestre de Alexandre, o Grande, dedicou a vida à filosofia, física, música, lógica, ética, ciência e várias outras áreas, sendo considerados o filósofo mais prolífico da antiguidade escreveu mais de 100 tratados cujo os quais pouco mais da metade sobreviveram graças a destruição cristã da biblioteca de Alexandria. É tido como o fundador da filosofia Ocidental ao lado de Platão e Sócrates, porém é lhe atribuído um caráter superior como pai da ciência e do método científico, foi também fundador do Liceu onde lecionou filosofia e outras matérias contribuindo para a Paideia dos gregos antigos.

Nasceu em Estagira, na Trácia. Filho de Nicômaco, médico do rei Amintas, pai de Filipe II e avô de Alexandre, o Grande. Ainda jovem partiu para Atenas onde se dedicou ao estudo da filosofia na academia de Platão até a morte do mestre, a escola passou para a direção de Espeusipo que deu um rumo mais matemático ao ensino da academia, o que não agradou Aristóteles, e o fez partir para Assos, onde dirigiu uma escola junto à Xenócrates, Erasto e Corisco (expoentes pouco conhecidos de sua época); depois conheceu Teofrasto e com ele dirige uma escola em Mitilene, na ilha de Lesbos, onde se casou e teve filhos.

Se tornou mestre de Alexandre, voltou para Atenas e fundou o Liceu onde foram estudados assuntos diversos e não tardou para se tornar uma biblioteca, e em 323 a.C. com a morte da Alexandre, cresce um sentimento anti-macedônico, e pela conhecida ligação de Aristóteles com o finado imperador ele decide fugir em 322 a.C. para  a casa de sua mãe em Cálcides dizendo a seguinte frase: “Eu não vou permitir que os atenienses pequem duas vezes contra a filosofia” uma referencia clara à Sócrates, o filósofo acaba falecendo no mesmo ano e deixando um testamento que, dentre outras coisas, exige ser enterrado ao lado de sua esposa.

Aristoteles
Busto de Aristóteles
  • Pensamentos de Aristóteles 

Dentre seus principais trabalhos há sete campos de estudo que valem a pena serem comentados aqui, são eles a química, astronomia, biologia, metafísica, ética, artes e política. É claro que certas ideias não são compatíveis com as de hoje, mas mesmo assim a similaridade do pensamento de Aristóteles com os fatos de hoje já constatados pelas tecnologias é de se chamar a atenção.

Química: Em contrapartida à Platão, que pensava que tudo era composto de átomos (indivisíveis) multi geométricos, Aristóteles propunha que o espaço era repleto de continuum, material divisível (seria o átomo atual). Aristóteles dizia que a matéria é formada por quatro elementos: terra, água, fogo e ar, mas cada matéria teria um substrato único impossível de ser isolado, seria apenas um suporte que transmite as quatro qualidades: seco, úmido, quente e frio.

Astronomia: Para Aristóteles o cosmos é uma esfera gigantesca limitada onde as estrelas se prendiam e haviam varias camadas dentro dessa esfera, cada planeta tinha uma camada e todos giravam em torno da terra, que se ficava imóvel no meio do sistema (geocentrismo), Aristóteles concluiu que o universo era plano e que a terra era o centro, uma ideia erroneamente geocêntrica e falsamente constatada, pois foi com a observação simples que o filósofo chegou a essas conclusões, sendo que nas escalas reais, a proporção e dimensão da terra fogem ao pensamento simplista de Aristóteles.

Biologia: Aristóteles havia feito avaliações pautadas na observação muito precisas, como a herança genética, observando traços que pais e filhos compartilham como cor de cabelo, formato da orelha e nariz, também é notável seus estudos na zoologia onde classificou mais de 400 animais. Entretanto o filosofo foi mal visto pelas feministas e pelas comunidades LGBT e politicamente corretos da modernidade por conta de suas conclusões em relação a mulher ser biologicamente diferente do homem (nada mais que algo totalmente lógico), e por considerar a homossexualidade um desperdício para a sociedade já que não contribui para a formação de famílias (algo que também parece totalmente lógico).

Metafísica: A metafísica aristotélica ficou jogada por toda a sua obra, e entra em conflito com o mundo das ideias de Platão, enquanto este acreditava que a verdade esta no mundo das ideias, em um “plano superior” e que a coisa material não tem valor nenhum, Aristóteles dizia que não, que a coisa e a ideia estão unidas e isto é a verdade, por exemplo, a ideia de cadeira e a cadeira não são coisas diferentes, mas a mesma coisa (o que hoje nos parece lógico, para Aristóteles também era).

Platão_e_Aristóteles
Platão e Aristóteles por Rafael Sanzio

Ética: Aristóteles modificou o pensamento da filosofia Ocidental com suas proposições de ética, ele dizia que a diferença da ação humana para a ação animal é que o homem visa o bem, logo, se nossa finalidade com toda nossa ação é o bem, o homem é um animal potencialmente social, logo pode ser ligado a frase aristotélica: “O homem é um animal político”. Na visão do filosofo a ética serve para melhorar nossas relações sociais e nossa qualidade de vida, realmente nos dar um maior roteiro de como viver em sociedade e como conciliar a felicidade.

Artes: As artes para Aristóteles são como algo ideal, capaz até de reparar os erros humanos dando-nos uma formação moral, dentre o que o filosofo considerava arte, podemos destacar a música e a poética como as mais importantes.

Sobre a música, Aristóteles concorda e discorda do seu uso na educação, pois esta deve ter seu tempo especifico em momentos de prazer, mas pode ser usada para fazer algo ser melhor compreendido, e diz também que devemos focar mais em ouvir música, que em fazê-la. Na obra Problemas ele discute com maior ênfase tudo que concerne a música (claro, de sua época), timbre, entonação vocal, harmonia, et cetera.

Sobre a poética, o filosofo põe em discussão dois tipos de poesia, a épica e a trágica concluindo no final de sua obra Poética (que esta incompleta) que a épica é melhor, mais completa, por agregar mais dinâmica, sentimentos, métrica e outras características. Ele também apresenta a poesia como imitação, dizendo que a mimética é natural do homem e traz sentimentos de prazer, conhecimento e realização.

Política: Para Aristóteles, o homem é um animal politico (logo moral) e o estado, sendo criado por homens, também deve ser moral, mas a política se difere da moral, pois esta visa o indivíduo e aquela a coletividade. A ética é a doutrina moral individual, a política é a doutrina moral social. E sendo o bom Aristocrata que era, Aristóteles também não negava a escravidão, dizendo que o escravo tem a função de servir na sua posição de escravo da melhor maneira possível, mais sobre esse tema complexo do filosofo pode ser encontrado em Ética a Nicômaco e A Política.

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Colunas Remanescentes do Templo de Apolo

Aristóteles era um grande apreciador da tradição, folclore e cultura, ele e sua escola tinham um interesse especial nos enigmas da Pítia e estudaram também as fábulas de Esopo, assim como se dedicou a estudar Homero. Os livros de Aristóteles tal como os de Platão e de outros Helênicos servem não apenas como material filosófico, mas cultural, onde podemos observar como era a interpretação e interação dos antigos Europeus com sua religião, claro, algumas fontes estão quase que totalmente cristianizadas, inclusive acontece uma espécie de “cristianização” nas traduções para outros idiomas, mesmo assim são materiais valiosíssimos que tem de ser preservados.

O que se deve fazer em uma leitura como essas é ter conhecimentos básicos de hermenêutica (campo da filosofia que se ocupa com a interpretação), pois os textos do grego antigo, foram traduzidos ainda no passado por cristãos, membros da escola filosófica clássica da escolástica como Tomás de Aquino, o homem que trouxe Aristóteles para a perspectiva abraâmica. A interpretação que se espera em textos pagãos de filosofia ou mitológicos é o olhar cíclico sobre a cosmogonia, cultura social aplicada no período que se tem em vista; e literalmente qualquer manifestação literária e intelectual, que remonta a tempos anteriores à era cristã tende a atender essa perspectiva.

Filosofia Ocidental: Platão — 22 de março de 2016

Filosofia Ocidental: Platão

Foi um filosofo Pagão da Grécia Antiga que nasceu e viveu em Atenas (428/427-348/347 a.C.) e é considerado por muitos o maior expoente do pensamento Ocidental, Platão é creditado, junto a Sócrates, com o mundo das ideias, que consiste em um pensamento metafísico e que influenciou vários filósofos posteriores, um fato pouco comentado mas de relevância histórica é que seu nome não era Platão, mas sim Arístocles, Platão é um apelido que significa ombros largos (do grego: Πλάτων).

No que concerne ao entendimento de mundo dos filósofos, é importante frisar que as concepções, definições e atribuições das ideias no geral são feitas pelos acadêmicos que estudaram durante muito tempo as concepções particulares das filosofias dos filósofos, entretanto, tais longos estudos foram feitos com uma mentalidade muito arraigada em noções e semânticas comuns ao cristianismo e na epistemologia abraâmica de modo geral, sendo assim, tais semânticas e noções podem ter conotações muito diferentes e por vezes não existirem na antiga concepção grega e europeia no geral.

  • Sócrates (469-399 a.C.)

Foi um filosofo de Atenas que serviu como personagem principal em muitas narrativas e diálogos platônicos, Sócrates não deixou nada escrito, apenas diálogos que foram transcritos por Platão, seu discípulo, e por isso é difícil creditar qual por cada ideia, ou até confirmar se Sócrates de fato existiu ou foi apenas um personagem para servir de canal as ideias de Platão.

Uma das ideias atribuídas à Sócrates é o Método Socrático que consiste em três etapas para se chegar ao conhecimento verdadeiro:

  1. Fazer o interlocutor se questionar de suas ideias, e coloca-lo em reflexão, fazendo com que ele se embaralhe e se perca no raciocínio até um ponto onde ele nem saiba mais do que estava falando.
  2. Fazê-lo cair em contradição e perceber como seu conhecimento é finito e limitado.
  3. Através da discussão acerca de tal assunto obter algo que se assemelhe a verdade, no caso, Maiêutica, parir ideias.

Sócrates também era um critico ferrenho dos sofistas, atacava-os em seus oficios, e criticava a forma como viviam ensinando por dinheiro, o filosofo foi inclusive retratado na peça As Nuvens de Aristófanes como sendo ateu, vagabundo e sofista, considerações errôneas do dramaturgo.

Socrates
Busto de Sócrates

O filosofo foi condenado à morte em Atenas com as acusações de corrompimento da juventude, ateísmo e compactuação com deuses malignos que gostam da destruição, ele respondeu afirmando que não corrompia ninguém, apenas questionava e interrogava as pessoas para obter ou se aproximar da verdade, negou as acusações de ateísmo e compactuação com deuses estrangeiros, mesmo assim foi condenado, e dentre várias penas que o privariam de filosofar, escolheu a morte e optou por beber cicuta.

Após sua morte, Platão continuou lecionando em sua escola, e passando o pensamento de Sócrates adiante, o filosofo é até hoje visto como um dos maiores da história pelo seu pensamento inovador.

  • Pensamentos de Platão

Dentre os principais pensamentos atribuídos (atribuídos é o termo, pois em seus livros existem vários personagens, alguns inventados e outros reais, o que impede uma identificação exata de qual ideia é de quem) a Platão podemos destacar a Teoria das Ideias, Ética e Justiça, Alegoria da Caverna e o Mito de Er.

Teoria das Ideias: A Teoria das Ideias afirma que ideias abstratas não-materiais imutáveis é que possuem o tipo mais alto e mais fundamental da realidade e não o mundo das sensações, o mundo material, o pensamento capta formas inteligíveis que são as essências puras das coisas, para Platão há uma ligação metafísica entre a visão do pensamento e o objeto.

Ética e Justiça: Esta ideia é discutida na República, onde Sócrates (personagem da narrativa) descreve seu modelo ideal de cidade, tendo cada um em seu ofício, como se cada qual nascesse determinado por um dom ou condição a tal serviço, como os fortes serem guerreiros, os pensadores filósofos, os que bem escutam serem músicos, et cetera.

Platão da espaço na construção da cidade para descrever como ela se organizaria, para ele o líder da cidade deveria ser o filosofo, pois este é extremamente sábio, e digno de tal cargo, o filosofo define a justiça como a vontade de um cidadão de exercer sua profissão sem se meter em outros assuntos, para a justiça ser validada ela tem que ser tida como virtude.

Alegoria da Caverna: A alegoria da caverna é a mais conhecida narrativa platônica, ela pode ser descrita melhor com uma imagem, mas vale destacar o que é cada coisa.

  1. As sombras são o reflexo do que é real, mas que estão bastando na vida dos ignorantes.
  2. As correntes são os sentidos, que nos mantêm presos a realidade sensível.
  3. O homem que se desvencilha das amarras e sai da caverna é o filosofo, e depois volta para tentar libertar seus companheiros.
  4. O sol é a verdade, a ideia pura e simples.

Mito de Er: O mito narra a como as pessoas vêm para a terra, elas saem do mundo das ideias, e antes de chegarem até aqui elas passam por um rio, onde todos bebem de suas águas, os que bebem mais esquecem mais e serão aqui na terra os tolos, e os que bebem pouco, não esquecem muito, e estes serão os sábios, a narrativa é bem mais detalhada no livro X da República, mas me aterei à isto.

Platão foi um grande expoente da filosofia ocidental, suas ideias deram base à fundamentação do racionalismo e seu pensamento foi seguido pelos neo-platonistas que se seguiram após ele já no Império Romano. Seus escritos, assim como os de Aristóteles, nos dão uma noção não só da filosofia Grega, mas da cultura e da religião pagã daquela época, por vezes que seus escritos tenham sido interpretados dentro de noções culturais estranhas a eles e terem passado pela mão dos escolásticos, por isso é sempre bom enriquecer-se de leituras de personagens deste período e jamais deixar de revisitar a filosofia quando necessário.

Filosofia Ocidental: Pré-Socráticos — 21 de março de 2016

Filosofia Ocidental: Pré-Socráticos

Na filosofia ocidental existem varias escolas ou movimentos filosóficos, dentre os quais podemos destacar o existencialismo, racionalismo, platonismo, empirismo, e outros, o que nos garante uma vasta linha de conhecimento, tratarei primeiramente dos pré-socráticos, como o nome sugere foram filósofos que viveram antes de Sócrates, mas alguns deles coexistiram com o filósofo. Nenhuma obra completa dos pré-socráticos resistiu ao tempo e às barbáries dos cristãos, com a queima da Biblioteca de Alexandria uma vasta parte dos livros dos antigos pensadores se perderam em cinzas, inclusive alguns de Platão e Aristóteles, raríssimo material que jamais poderá ser reposto.

Retratação da Biblioteca de Alexandria
Retratação da Biblioteca de Alexandria

A biblioteca continha obras de grandes nomes da filosofia Grega e de filósofos das proximidades do Império Grego, mais de 100.000 livros foram perdidos nas chamas. Os filósofos pré-socráticos são caracterizados por pertencerem à escola Jônica e por adotarem a Arché (no grego: ἀρχή) como sendo aquilo que da início, que origina e que está presente no movimento cíclico da natureza, sempre se renovando, uma espécie de “elemento onipotente”, entretanto, essa ideia foi abandonada pela filosofia de Sócrates e adiante. Dentre os filósofos desta época de maior importância estão:

  • Tales de Mileto (624-548 a.C.)

É tido como o primeiro filosofo do ocidente e fundador da escola Jônica, teve muita influencia na matemática e astronomia alem da filosofia, Tales baseou-se nas observações da natureza, ele tinha como Arché a Água.

Passagem da Metafísica de Aristóteles:

“Tales diz que o princípio de todas as coisas é a água, sendo talvez levado a formar essa opinião por ter observado que o alimento de todas as coisas é úmido e que o próprio calor é gerado e alimentado pela umidade. Ora, aquilo de que se originam todas as coisas é o princípio delas. Daí lhe veio essa opinião, e também a de que as sementes de todas as coisas são naturalmente úmidas e de ter origem na água a natureza das coisas úmidas.”

Tales foi muitas vezes criticado, mesmo em sua época, por se comportar de maneira “estranha” na visão de alguns, em relato de Plutarco, Tales tropeçou e caiu enquanto caminhava e foi repreendido por alguém sendo chamado de lunático, mas ele estava analisando o tempo para saber se haveria uma seca. Está anedota demonstra como Tales se interessava pela observação, sendo assim o primeiro filosofo a pautar seu pensamento em um modo empírico, uma espécie de proto-empirismo, ele foi mestre de Anaximandro e Anaxímenes.

Tales-de-Mileto
Prováveis feições de Tales de Mileto
  • Anaximandro (610-547 a.C.)

Foi seguidor da escola Jônica, se destacou no pensamento geográfico e físico, ele dizia que a terra era cilíndrica, hoje sabemos que não, mas para a época era uma grande inovação no pensamento, também teve ideias que se assemelham ao intendimento da física moderna. Sua Arché é o Ápeiron, um elemento cujo o qual todas as coisas se originam, seria uma substância infinita, que cria tudo na natureza. Acredita-se que escreveu um livro intitulado “Sobre a Natureza” mas a obra se perdeu, é possível que tenha sido no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

  • Anaxímenes (588-524 a.C.)

Foi outro dos mais importantes discípulos de Tales de Mileto, foi dedicado à meteorologia e o primeiro a afirmar que a luz da lua provém do sol, foi também o primeiro a medir as divisões do dia e desenhar um relógio de sol.

Sua Arché era o Ar, ele embasava tal afirmação na observação da condensação das coisas na natureza, como a nevoa que depois se tornaria água, ele supunha que essa condensação poderia vir a se tornar terra ou rocha, mas isso não foi observado. Ele também explicava alguns fenômenos naturais com embasamento logico, como os terremotos, ele dizia que seria por falta de umidade, o que faz com que a terra resseque, se quebre e por consequência trema, o relâmpago ocorre quando as nuvens são separadas violentamente pelo vento o que causa uma iluminação como o fogo.

  • Demócrito (460-370 a.C.)

É um dos pré-socrático que coexistiu com Sócrates,  foi discípulo de Leucipo de Mileto e que junto com ele fundamentou a teoria atomista, também influenciou muito a filosofia de Epicuro, um dos maiores filósofos do Helenismo. Sua obra sobreviveu apenas por relatos e muitas vezes não confiáveis já que quem mais os fez foi Aristóteles, seu maior crítico, mas Demócrito de fato foi um escritor muito prolífico tendo atuado nos campos da ética, matemática, musica, dentre outras.

Sua Arché é o átomo, uma partícula microscópica, indivisível que origina todas as coisa, essa ideia de átomo foi usada até tempos modernos, mas a ideia de ser uma Arché ou indivisível já foi abandonada, mesmo assim, o pensamento de Demócrito é de se admirar que em sua época, ele já imaginava um objeto microscópico compondo matéria física.

Acredito que estes sejam os mais impressivos que me caiba comentar, estou deixando Heráclito e Parmênides para outra oportunidade onde os caracterizarei de um modo mais complexo e completo.